Eu quero é que esse canto torto,
feito faca, corte a carne de vocês.
(“À palo seco”, Belchior).
Existe no mundo uma estrada
que guarda em seu fim a resposta
para todas as perguntas.
Às vezes eu penso
que é melhor nem pensar.
O preço da sanidade
pode ser a ignorância.
Daí tanta gente
conseguir viver a vida
e volta e meia até ser feliz.
A felicidade não é
senão a tolice que venda
os homens.
E é por isso que aqueles que tentam,
os que perguntam,
os que de fato pretendem
entender
(e se o fazem
é pelo desejo de resolver,
de curar)
sofrem do sofrimento pungente
que é quase dar de cara com a resposta.
Se a maioria dos homens
escolhe viver na ignorância,
eu não os posso culpar.
Nunca.
Mas há os que a História guarda
no seio magno:
os que tiveram a benção
e a maldição
de acreditar numa antiga
quimera humana inventada:
a Liberdade.
Por ela tiveram a carne
lacerada, queimada e rôta;
por ela traíram a si
e aos seus companheiros.
Em seu nome,
abriram mão da vida tola,
da ignorância doce
que é a possibilidade
de, vez ou outra,
ser feliz.
Por ela foram sãos
e por ela morreram,
ou desistiram
ou ainda se venderam
sem, porém, conseguir esquece-la.
É uma semente de inquietação que dá no peito.
Faz sentir-se às vezes tão pequeno,
mas também tão engrenagem de alguma coisa
que pode mover-se,
transformar-se.
É uma semente que faz não aceitar
e não querer desistir.
É também uma semente de fé.
Todos os que um dia lutaram por Liberdade
foram como religiosos.
E ainda o são, o serão.
É questão de crença e quase que só.
Crer que a humanidade é um todo
que merece ser livre.
Eu, por minha vez,
não sei.
Vejo nas idéias e nas práticas
- todas aquelas de que tomei conhecimento -
contradições.
Há muitos talvezes na vida
e o passar dos dias vai embrutecendo a gente
(ainda que haja aqueles poucos
que nos brotem flores).
Existe há tempos uma semente
de inquietação no meu peito,
que não me deixa respirar
serenamente.
Quase sempre eu fecho os olhos
e sinto a luz do sol
ou vento frio,
o cheiro bom da grama molhada
e o movimento que os músculos fazem
ao engendrar um sorriso.
É o meu remédio.
Mas nenhuma convicção cria raiz
dentro de mim,
porque simplesmente
a vida é dialética pra sempre.
A contradição tá sempre lá,
daí ter paz ou ser livre
parecem tão... mentiras.
Eu tenho escrito prosa seca
em versos disformes.
E se hoje alguém me perguntar o que eu sou
ou o que eu sei,
responderei com meu silêncio,
desviando meu olhar.
É como seu eu tivesse parado
após a pergunta.
Eu estou presa no silêncio
que precede a resposta.
sábado, 28 de abril de 2007
segunda-feira, 23 de abril de 2007
À Saudade
Hoje o que eu quero
é te cantar esse poema, Saudade.
Pois no meu peito em que um dia
residiu coisa tão boa
hoje o que resta é só tu,
já que hoje eu sou só metade.
Eu passo pelas ruas das cidades
cantando.
A música e todas as cores do céu
são doces
tal como és doce – doce demais.
De um jeito que traz na essência
essa procura pungente
pelo sabor que tinha o antes.
Antes...
quanto em meu peito
tocava um samba assim,
de amor.
Meu coração,
que um dia bateu pandeiro,
agora é choro;
bonito demais.
É doce te ter comigo, parceira,
mas, ô, Saudade,
queria só por um tempo,
num beijo imenso,
deixar-te pra trás.
é te cantar esse poema, Saudade.
Pois no meu peito em que um dia
residiu coisa tão boa
hoje o que resta é só tu,
já que hoje eu sou só metade.
Eu passo pelas ruas das cidades
cantando.
A música e todas as cores do céu
são doces
tal como és doce – doce demais.
De um jeito que traz na essência
essa procura pungente
pelo sabor que tinha o antes.
Antes...
quanto em meu peito
tocava um samba assim,
de amor.
Meu coração,
que um dia bateu pandeiro,
agora é choro;
bonito demais.
É doce te ter comigo, parceira,
mas, ô, Saudade,
queria só por um tempo,
num beijo imenso,
deixar-te pra trás.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
Pra você.
O tempo é um monstro e é um senhor.
Ele tem o poder de dar e de varrer as coisas.
Vai ver que tudo na vida é sorte.
Sorte de ser escolhido pelo tempo pra viver um pouquinho do que é bom.
Mas aí... aí acaba.
E quando acaba, vem o depois.
E no depois é só dor.
É no depois que a gente fica pensando
tudo que deveria ter feito diferente.
Tudo o que deveria ter feito mais,
e como era bom...
É no depois que a gente fica só, perdido,
pensando que não aproveitou ao máximo
o que o tempo concedeu;
como a gente foi leviano.
A minha vida é dor.
É uma base de dor que fica lá no fundo,
enquanto eu brinco, sorrio, trabalho, estudo,
e que, quando eu ponho a cabeça no travesseiro,
toma conta de todos os meus poros, mais que o meu coração,
e me faz chorar e doer
e querer e querer e querer e não ter
e sonhar que tô correndo tão rápido
sem saber se é fuga ou se é perseguição
numa noite escura da cidade dos sonhos
até que eu acordo com o coração pulando muito
e torço com toda a minha força
pra ele pular demais da conta
e sair pra fora de mim,
pra fora de mim.
Ele tem o poder de dar e de varrer as coisas.
Vai ver que tudo na vida é sorte.
Sorte de ser escolhido pelo tempo pra viver um pouquinho do que é bom.
Mas aí... aí acaba.
E quando acaba, vem o depois.
E no depois é só dor.
É no depois que a gente fica pensando
tudo que deveria ter feito diferente.
Tudo o que deveria ter feito mais,
e como era bom...
É no depois que a gente fica só, perdido,
pensando que não aproveitou ao máximo
o que o tempo concedeu;
como a gente foi leviano.
A minha vida é dor.
É uma base de dor que fica lá no fundo,
enquanto eu brinco, sorrio, trabalho, estudo,
e que, quando eu ponho a cabeça no travesseiro,
toma conta de todos os meus poros, mais que o meu coração,
e me faz chorar e doer
e querer e querer e querer e não ter
e sonhar que tô correndo tão rápido
sem saber se é fuga ou se é perseguição
numa noite escura da cidade dos sonhos
até que eu acordo com o coração pulando muito
e torço com toda a minha força
pra ele pular demais da conta
e sair pra fora de mim,
pra fora de mim.
quarta-feira, 4 de abril de 2007
Exercício (...) III
São lindos dias em que o sol
se esconde atrás do próprio efeito.
Nuvens ralinhas de calor
cobrem o astro.
E nesse instante o mundo fica
quase ameno.
Ainda é claro
o seu poder de queimar tudo.
Arder o mundo,
tornar água o que for duro
(como quando homem maduro
chora sem querer chorar).
Mas o sol fica lá coberto,
quieto e disperso.
Vai morenando as coisas todas
e mais meus versos.
se esconde atrás do próprio efeito.
Nuvens ralinhas de calor
cobrem o astro.
E nesse instante o mundo fica
quase ameno.
Ainda é claro
o seu poder de queimar tudo.
Arder o mundo,
tornar água o que for duro
(como quando homem maduro
chora sem querer chorar).
Mas o sol fica lá coberto,
quieto e disperso.
Vai morenando as coisas todas
e mais meus versos.
Exercício Poético do lado de lá da Baía II
Mas eis que me vejo à frente
de uma vida semi-encantada.
Meu corpo pesado
abriga alma leve
que o vento permeia.
Eu já não sinto fome;
só sede tenho agora.
Sede d'água,
sede d'alma,
sede de ter sede sem ceder.
Sede de viver semi-encantada.
de uma vida semi-encantada.
Meu corpo pesado
abriga alma leve
que o vento permeia.
Eu já não sinto fome;
só sede tenho agora.
Sede d'água,
sede d'alma,
sede de ter sede sem ceder.
Sede de viver semi-encantada.
terça-feira, 3 de abril de 2007
Exercício Poético do lado de lá da Baía I
Um passarinho
me passa em frente
sem me notar.
Caminha calmo
"tem cá comida?
quem sabe lá?"
Me foge a vista
o pequenino,
mas tá na mente.
E eu me retiro
desse jardim
serenamente,
serenamente,
serenamente...
me passa em frente
sem me notar.
Caminha calmo
"tem cá comida?
quem sabe lá?"
Me foge a vista
o pequenino,
mas tá na mente.
E eu me retiro
desse jardim
serenamente,
serenamente,
serenamente...
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