sábado, 28 de abril de 2007

Canto Torto

Eu quero é que esse canto torto,
feito faca, corte a carne de vocês.

(“À palo seco”, Belchior).

Existe no mundo uma estrada
que guarda em seu fim a resposta
para todas as perguntas.

Às vezes eu penso
que é melhor nem pensar.

O preço da sanidade
pode ser a ignorância.
Daí tanta gente
conseguir viver a vida
e volta e meia até ser feliz.

A felicidade não é
senão a tolice que venda
os homens.

E é por isso que aqueles que tentam,
os que perguntam,
os que de fato pretendem
entender
(e se o fazem
é pelo desejo de resolver,
de curar)
sofrem do sofrimento pungente
que é quase dar de cara com a resposta.

Se a maioria dos homens
escolhe viver na ignorância,
eu não os posso culpar.
Nunca.

Mas há os que a História guarda
no seio magno:
os que tiveram a benção
e a maldição
de acreditar numa antiga
quimera humana inventada:
a Liberdade.

Por ela tiveram a carne
lacerada, queimada e rôta;
por ela traíram a si
e aos seus companheiros.

Em seu nome,
abriram mão da vida tola,
da ignorância doce
que é a possibilidade
de, vez ou outra,
ser feliz.

Por ela foram sãos
e por ela morreram,
ou desistiram
ou ainda se venderam
sem, porém, conseguir esquece-la.

É uma semente de inquietação que dá no peito.
Faz sentir-se às vezes tão pequeno,
mas também tão engrenagem de alguma coisa
que pode mover-se,
transformar-se.
É uma semente que faz não aceitar
e não querer desistir.

É também uma semente de fé.

Todos os que um dia lutaram por Liberdade
foram como religiosos.
E ainda o são, o serão.
É questão de crença e quase que só.
Crer que a humanidade é um todo
que merece ser livre.

Eu, por minha vez,
não sei.

Vejo nas idéias e nas práticas
- todas aquelas de que tomei conhecimento -
contradições.

Há muitos talvezes na vida
e o passar dos dias vai embrutecendo a gente
(ainda que haja aqueles poucos
que nos brotem flores).

Existe há tempos uma semente
de inquietação no meu peito,
que não me deixa respirar
serenamente.

Quase sempre eu fecho os olhos
e sinto a luz do sol
ou vento frio,
o cheiro bom da grama molhada
e o movimento que os músculos fazem
ao engendrar um sorriso.

É o meu remédio.


Mas nenhuma convicção cria raiz
dentro de mim,
porque simplesmente
a vida é dialética pra sempre.

A contradição tá sempre lá,
daí ter paz ou ser livre
parecem tão... mentiras.

Eu tenho escrito prosa seca
em versos disformes.

E se hoje alguém me perguntar o que eu sou
ou o que eu sei,
responderei com meu silêncio,
desviando meu olhar.

É como seu eu tivesse parado
após a pergunta.

Eu estou presa no silêncio
que precede a resposta.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi,Bárbara.Sou Carol Luisa e vim parar no seu blog por culpa do CEP.Estou descobrindo pessoas talentosíssimas via Chacal,e vc é uma delas.Parabéns,adorei tudo aki,vc é ótima,menina.Voltarei mais vezes.Tbm gosto de escrever e em breve estarei com um blog na praça.Muitos bjs e parabéns mais uma vez.Carol.

Romã disse...

Isso é o meu namorado.